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Cardeal Cerejeira Imprimir e-mail
11-Jul-2008

D. Manuel Gonçalves Cerejeira, foi Cardeal Patriarca de Lisboa durante 42 anos. Começando pelo principio direi que no dia 29 de Novembro do ano de 1888 nasceu numa modesta casa, situada no lugar da Serra (hoje Biblioteca e posto Internet) um menino a quem foi dado o nome de Manuel Gonçalves Cerejeira.

Foram os seus pais Avelino Gonçalves Cerejeira e Joaquina do Sacramento de Jesus Rebelo, vindo a ser baptizado na igreja paroquial de Lousado, no dia 3 de Dezembro de 1888. Aos 7 anos de idade seus pais matricularam-no na escola oficial de Lousado sendo aí o seu professor Bernardino António dos Santos, concluindo a instrução primária (4º classe).

Pelo seu professor foi então dito que o aluno Manuel havia sido, um bom exemplo de dedicação ao estudo e de fidelidade à disciplina. Concluída que foi a instrução primária, segue para a cidade de Guimarães, onde se matricula no Seminário Liceu dessa cidade.

No dia 8 de Dezembro de 1904, realizou-se em Braga, numa academia de estudantes, uma sessão solene em honra da Nossa Senhora da Conceição – Padroeira de Portugal. Manuel Gonçalves Cerejeira foi o aluno escolhido, para uma representação dos seus 140 condiscípulos do Seminário de Guimarães, falar sobe Nossa Senhora – padroeira de Portugal, e o jovem orador, tão bem se sobressaiu na sua prédica que se faz levantar a numerosa e culta assistência aplaudindo de pé e entusiasticamente as sua sapientes e eruditas palavra. Os 5 anos que estudou no Liceu Seminário de Guimarães, passou-os com distinção sendo dispensado das provas orais do 5º ano e aprovado com distinção.

Em 1905 matricula-se no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, onde concluiu o curso complementar de letras, também com distinção. Em 1906 matricula-se no Seminário conciliar de Braga onde permanece até 1909. Aqui como nos outros estabelecimentos de ensino é muitíssimo considerado, admirado, deixando as maiores saudades. Os seus professores e condiscípulos dizem que Manuel Gonçalves Cerejeira é pessoa afável, humilde e piedosa e muito inteligente.

Durante a sua permanência no Seminário de Braga veio em peregrinação a Santiago de Compostela Monsenhor Francisco Broune, arcebispo de Westminster – Inglaterra.

Nesta sua peregrinação resolveu fazer uma visita ao Norte de Portugal visitando o Seminário Conciliar de Braga. Porque se tratava de um prelado de grande prestígio, a Reitoria do Seminário fez questão em prestar-lhes as mais merecidas homenagens. Dentre estas estaria a saudação feita por um aluno do Seminário. Foi encarregado desta honrosa mas responsável missão o laureado seminarista Manuel Gonçalves Cerejeira, não recusando o convite.

E fê-lo tão brilhantemente que, no final do discurso de saudação, o Arcebispo Prima de Braga, D, Manuel Baptista da Cunha, fez o seguinte comentário – profético: "aquele rapaz há-de ir muito longe!" Passados 20 anos, D. Manuel Gonçalves Cerejeira foi a Roma receber o chapéu cardinalício e aí se encontrou com o já velho cardeal inglês e falou-lhe da sua visita ao seminário de Braga que o cardeal também se lembrava dizendo-lhe: a minha profecia está cumprida. Em 1909 Manuel G. Cerejeira, vai para Coimbra, onde se matricula na Faculdade de Teologia. No dia 1 de Outubro de 1910, recebeu em Braga, Prima Pousura e no dia seguinte, recebeu os quatro graus de Ordem Menores; a seguir o Subdiaconado.

Volta a Coimbra, frequentando o segundo ano de Teologia, ao mesmo tempo matricula-se como aluno voluntário na quarta e sexta cadeira do 1º ano de direito estudando história das instituições do Direito Romano, Peninsular e Português, frequentando ainda a 7ª cadeira do 2º ano de direito. Em 17 de Dezembro de 1910, foi Manuel Gonçalves Cerejeira ordenado Diácono, pelo então Arcebispo Primaz de Braga, D. Manuel Baptista da Cunha e a 1 de Abril de 1911, confere-lhe o Presbitério, urgindo-lhe as mãos para todo o sempre e em 23 de Abril de 1911,o novo Presbítero Manuel Gonçalves Cerejeira jubilosamente e solenemente celebra a sua primeira missa na mesma igreja que 23 anos antes havia recebido o santo sacramento de Baptismo.

Em 1911, o já sacerdote Padre Manuel G. Cerejeira matricula-se no 2º ano na faculdade de Direito Civil e Economia Politica e frequenta as aulas do 3º ano nas cadeiras Direito Administrativo, Direito Penal e Finanças e ainda no 3º ano de teologia, alcançando a mais alta classificação.

Em 1912 abandona o curso de Direito e matricula-se na Faculdade de Letras, onde conclui a sua formatura com 19 valores. Em 11 de Novembro de 1916 é nomeado assistente da Faculdade de Letras.

Em 30 de Janeiro de 1918, doutorou-se em Letras (secção de Ciências Históricas e Geografia) com a mais alta classificação (20 valores), passando nela a exercer as honrosas funções de jubilado professor durante 10 anos, até 23 de Março de 1928 altura em que ascendeu ao Colégio Episcopal, sendo designado pelo Papa Pio XI para Arcebispo Titular de Mitilene e Auxiliar do Patriarca de Lisboa Cardeal D. António Mendes Belo.

No dia 5 de Agosto de 1929, morre D. António Mendes Belo, ficando assim vaga a Sé de Lisboa, vindo esse lugar a ser ocupado pelo seu auxiliar – Arcebispo de Mitilene. D. Manuel Gonçalves Cerejeira, por determinação apurada em Consistório Secreto realizado em 18 de Novembro do mesmo ano. Neste consistório, foi também elevado à categoria de Cardeal, Monsenhor Pacelli, que viria a ser o Papa Pio XII. No dia 2 de Fevereiro de 1930, é D. Manuel Gonçalves de Cerejeira, investido na Sé de Lisboa na qualidade de Cardeal Patriarca de Lisboa.

D. Manuel Cerejeira passou então a ser o Cardeal mais novo do Colégio Cardinalício. Por isso passou a ser designado o Cardeal-Menino. O tempo ia rolando, provocando naturalmente o desgaste da vida. D. Manuel Cerejeira sentir-se-ia já pouco cansado. Por isso em 1966 solicita ao seu superior hierárquico – Papa Paulo VI, a resignação ao lugar. Paulo VI não concorda e pede-lhe que continue no seu posto.

O Cardeal Cerejeira continua a trabalhar com reconhecida inteligência, com piedade e com grande saber. Entretanto 82 anos de vida e 40 de pontificado já são suficientes e renova o seu pedido de resignação, obtendo-o depois de muita insistência, sendo publicamente anunciada através do Sr. Bispo de Leiria em 13 de Maio de 1971, em Fátima.

O Cardeal Cerejeira participou em três conclaves dos quais saíram eleitos outros tantos Papas a saber: Cardeal Engenio Pacelli (Pio XII, 1939), Cardeal Roncalli (João XXIII) e o Cardeal Montini (Paulo VI, 1963).

Mais nenhum Cardeal terá participado em tantos Conclaves. Durante o interregno entre a morte de João XXIII e a elevação de Paulo VI, o Cardeal Cerejeira fez parte como Cardeal decano da Ordem dos Presbíteros do Triunvirato que, conjuntamente com o Cardeal Camerlengo, D. Bento Aloísio Masella governou a igreja.

O Cardeal Cerejeira foi membro da Real Academia de La História de Madrid, desde 20-06-1921, da Academia de Letras Brasileira e da Academia de Letras de São Paulo. Foi distinguido com a Grão Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo, (desde 5-3-1932) , Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada (14-5-1936), Cruz Meritíssima de São Raimundo de Penhaforte (1945) e as mais altas distinções da Ordem de Malta e da Ordem Equeste do Santo Sepulcro e Grã-Cruz da ordem do Infante Dom Henrique (27-12-1969).

Foi ainda representante Prontificado em varias sagrações e congressos, realizados em vários países. Após a sua resignação ao lugar de Bispo da Diocese de Lisboa, recolheu em 7 de Outubro de 1971, à Casa do Bom Pastor, situada no lugar da Buraca – Lisboa, onde santamente faleceu às 23 horas do dia 1 de Agosto de 1977.

O Cardeal Cerejeira foi gigante no pensamento, no saber, no senso e no amor a Deus e à Igreja. Foi ainda gigante na acção pastoral da sua diocese.

Por isso dignificou a igreja e a sua e nossa Pátria; por isso foi e é orgulho e honra da nossa Terra – Lousado.

“A grandeza do homem não se encontra na sua beleza física, por mais atraente que ela possa ser, nem tão pouco no tamanho dos seus bens materiais, por mais volumosos que eles possam ser, está sim na incorruptibilidade do seu carácter e na humanidade do seu coração.”

Continuando com a descrição (embora que resumidíssima) da vivência temporal daquele que foi o nosso mais ilustre e sapiente conterrâneo, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, direi que responsável e providente que era, dispôs atempadamente as suas disposições testamentárias, escritas por si que textualmente diziam o seguinte: “Em nome de Deus. Eu D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa faço o meu testamento pela forma seguinte: como se fosse o ultimo momento da minha vida, quero morrer a adorar, a louvar, a bendizer, a dar graças a meu Senhor Jesus Cristo e por Ele e Nele a Santíssima Trindade, a Quem é devida toda a honra e toda a glória. Entrego confiadamente a Deus a minha alma, pois como São Paulo também posso dizer: "Scio cui credidi". Conheço o coração misericordioso do meu Deus e Senhor, e sei que para lavar os meus pecados derramou todo o seu sangue.

Espero que me deixará exalar o último suspiro na chaga aberta do seu Peito, perdoai-me os meus pecados e recebendo-me no seu Reino. Morro na Santa Igreja Católica, minha Mãe, que me deu à luz e a Graça do meu Senhor Jesus Cristo. Foi nela e por ela que conheci, amei, e servi Aquele que é Verdade, o Caminho e a Vida. E só me pesa não o ter feito como eu devia e Ele merecia, que era com toda a perfeição no dom total de mim mesmo. Cristão, sacerdote e bispo, uno a minha morte à que Nosso Senhor Jesus Cristo quis sofrer por amor de nós.

Aceito-a, bendigo-a e agradeço-a como a pena devida ao pecado e o supremo holocausto de adoração, louvor, acção de graças, reparação e súplica, em união com o meu divino Mestre e Salvador.

Ofereço-a em especial por todos aqueles que o Senhor confiou à minha guarda. Como se fosse livre de evitar a morte, quero sofrê-la para que tenham a vida eterna, e um dia comigo no Paraíso não cessem de cantar as misericórdias do coração de Jesus.

Entre todos os que o Senhor, por intermédio do Seu Vigário me confiou, ponho em lugar de eleição, no oferecimento da minha vida, os queridos sacerdotes.

Bem desejaria no céu interceder até ao fim do tempo para que Deus os guarde, os santifique, os multiplique, de tal sorte que se diga na terra que é o Senhor que passa neles santificando os homens.

Peço humildemente ao Vigário de Cristo a Sua Bênção Apostólica e o perdão de todos os meus pecados e faltas e negligências: de todo o mal que fiz, de todo o bem que deixei de fazer, e de todo o bem que fiz mal feito. E peço-o igualmente a todos aqueles a quem tenha prejudicado, seja com o que fiz, seja com o que não fiz. Especialmente os meus diocesanos, aos quais devo consagrar todas as luzes da minha inteligência, e forças da minha vontade e capacidade do meu coração a emergir do meu corpo. Sendo tão infiel às graças recebidas, parece-me porém, poder dizer: que não tive outros grandes amores da minha vida, além de Deus, da Igreja e da minha diocese. E se bem que não mereça, gostaria de ter merecido este título: um bispo que amou o seu clero. Aspirei desde a juventude a não ter outra riqueza que não fosse a de amar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo e á sua Igreja.

Os bens que possuir não os considero senão como bens da igreja para o serviço da glória de Deus e da salvação das almas, e todas constituo universal herdeiro os Seminários de Patriarcado de Lisboa representados pelo Seminário Maior de Cristo - Rei.

Lisboa, 7 de Janeiro de 1950 (Ano Santo).

Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa

No decorrer do período da sua doença, que o levou à morte, D. Manuel Cerejeira, redigiu mais um texto, que juntou ao seu testamento que dizia o seguinte: “Acrescento ao meu testamento as seguintes palavras saídas do coração, para serem lidas com ele:

Com enternecido reconhecimento agradeço a todos os que trabalham comigo no apostolado – Senhores Arcebispos e Bispos, dilectos sacerdotes meus “cooperadores” auxiliares e instrumentos “ como diz o Concílio, apostólico leigos empenhados na vinda do Reino de Deus, e fiéis e dedicados familiares, aos meus parentes peço-lhes encarecidamente que se conformem e alegrem com a vontade de Deus, sobrepondo às riquezas e grandezas da terra a fidelidade à fé católica, a dedicação à Santa Igreja, a honradez e santidade da vida, o amor ao trabalho e a paz da consciência.

Não figura no testamento nenhuma clausula relativamente a sufrágios, porque desejando morrer pobre não quis impor nenhuma obrigação como quem deixa bens próprios. "Mas peço humildemente a todos os fiéis recomendem à misericórdia divina a minha pobre alma".

Reservo a ultima bênção para a diocese que foi minha mística esposa, o Patriarcado de Lisboa. E assim como ao entrar solenemente pela primeira vez na Sé Patriarcal consagrei a Diocese ao Coração Imaculada de Maria, assim agora lhe entrego, com toda a fé e devoção de que sou capaz: Santa Maria Mãe de Deus Rogai por mim pecador, agora e na hora da minha morte!”

Casa do bom Pastor 13-05-1977, Lisboa. Manuel Gonçalves Cerejeira – Patriarca resignatário de Lisboa.

Para terminar, direi que o cordão, que havia sido da sua mãe (prenda de noivado) e que dela o havia recebido, prendendo-o vezes sem conta ao pescoço, para junto do seu coração a recordar saudosamente, o doou à Sé de Lisboa.

Pelo exposto pode-se certificar que as palavras maldosas e instintivamente mal intencionadas atordoadas, postas malevolamente a público, de que o Cardeal Cerejeira era um poderoso accionista da Mabor, da Sacor, etc, não tinham a menor credibilidade nem razão de ser. O saudoso Cardeal Cerejeira foi sim muito rico, mas em valores morais, espirituais «, intelectuais e de dignidade.

Por isso bem digamos o seu bom Nome, o seu edificante passado e honremos a sua augusta memória.

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António Máximo